O cansaço definitivamente já havia tomado conta do corpo dela. Depois de três dias longe de casa, só desejva a própria cama. Além de ter que esperar até as 23 horas para pegar o ônibus de volta para casa, a terrível perspectiva de não conseguir cumprir a promessa feita ao melhor amigo (ou seria grande amor?) tornava a espera insuportável. E como "desgraça pouca é bobagem", sua poltrona no ônibus não seria a mesma que a de sua mãe. Realmente, sentar com um estranho e não poder relaxar era tudo o que ela precisava naquele momento!
Mas o tempo não pára, e o ônibus tem horário a cumprir. Sentou-se ao lado de um rapaz meio estranho. Ele tinha o cabelo cacheado, tinha tirado o tênis e tinha colocado fones no ouvido. O ônibus começou a andar e o tal rapaz começou a se revelar. Um psicopata inescrupuloso? Um maníaco? Um tarado? Um assassino sangüinário? Um criminoso procurado mundialmente? Não, não. Um perfeito folgado. "Apenas" isso.
Aparentemente ele devia imaginar que a poltrona era pequena demais para ele. E estiva as pernas, e inclinava a poltrona. E apoiou a perna na perna dela. Pobre coitado! Antes não tivesse cometido tamanho atrevimento. Ela fulminou-o com o olhar. E teria dado 25 tiros nele de sua pistola calibre 38 - se tivesse uma, obviamente. O cara dormia como um anjo, e ela ardia de raiva quase como um demônio.
E quanto mais ela imaginava planos mirabolantes de fazer o rapaz perceber que só tinha comprado um bilhete - portanto tinha direito apenas a uma poltrona -, mais ele teimava em se esticar e se apoiar na parte mais próxima do corpo dela. Quando o ônibus estava na metade do caminho, ela ocupava apenas um terço de seu assento. E não parava de olhar indignada para sua mãe, sentada em alguma poltrona por perto.
"Ah, mas era só o que me faltava. Esse folgado... Será que a mãe dele não ensinou que temos que respeitar o espaço dos outros?? Mal-educado... Ai, que vontade de esganar esse cara!!! Arrrgghhhhh! Se eu tivesse uma machadinha cortava essa perna dele fora... Séra que ele se toca se eu der um soco na perna dele??". Esses eram os pensamentos mais gentis que dominavam a sua cabeça.
O ônibus parou em um posto de beira de estrada, e ela desceu para esticar as pernas, e reclamar do rapaz para sua mãe. Ele já tinha tirado a garota do sério.
Ela voltou ao seu lugar, e o cara ainda estava lá, sentindo-se como se estivesse no sofá de casa. O ônibus voltou a andar, e mais uma vez o rapaz apoiou a perna sobre a dela. Então, ela encheu-se de um coragem vinda sabe-se lá de onde, e mexeu com firmeza a perna, para afastar a dele.
Repentinamente, como ela jamais poderia imaginar:
- Ai, desculpa -disse o rapaz, num tom realmente amigável e sincero.
- Ah, tudo bem - babulciou ela.
Agora ela queria abrir um buraco na terra, enfiar-se nele e não sair de lá nunca mais. Como ela pode alimentar tanto ódio por uma criatura tão doce?
Incrível como o lobo "folgado" de antes virou um fofo carneirinho com um simples pedido de desculpas. Foi assim que ela descobriu o poder que meia-dúzia de palavras gentis tinha sobre sua pessoa.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2008
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2 comentários:
Pois é , sao os riscos de morar numa cidade tão deslumbrante :)
Olha só não é que várias pessoas ( tá bom , apenas 2 até agora ) fizeram blog . Será que a moda volta ? Vou te linkar , xuxu !
Beijos
ana claudia..
eh, eu voltei com meu antigo blog :DDDD
e, eu realmente li esse textão q vc escreveu!
(ótimo por sinal)
beijos;
saudades imensas!
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